Kassab perde espaço com Tarcísio e pode ganhar espaço no governo de Lula
Chapa com Caiado teve 2,18% no 1º turno. Dias após a eleição, o presidente do PSD já discute a composição do quarto mandato de Lula
Poucas semanas separam o pior resultado eleitoral da carreira de Gilberto Kassab e o retorno dele ao lugar que ocupa há mais de uma década na política brasileira, o da negociação. O presidente nacional do PSD saiu das urnas com uma chapa derrotada e uma bancada encolhida no Congresso, mas já aparece no centro da conversa sobre o governo que Lula começa em 5 de janeiro.
A aposta que não deu certo foi a de lançar candidatura própria à Presidência. Kassab queria Tarcísio de Freitas como candidato apoiado pelo partido. O governador de São Paulo preferiu disputar a reeleição e apoiar Flávio Bolsonaro. Depois disso, o paranaense Ratinho Junior recusou o convite e o gaúcho Eduardo Leite acabou preterido. Restou a chapa puro-sangue, com Ronaldo Caiado na cabeça e Kassab como vice.
O resultado veio no dia 4 de outubro. Caiado e Kassab somaram cerca de 2,6 milhões de votos, o equivalente a 2,18% dos válidos. Kassab resumiu a frustração da estratégia em uma frase “o meu candidato era o Tarcísio”, disse.
O estrago não ficou só na eleição presidencial. O PSD elegeu governadores no Amapá, no Maranhão, em Pernambuco e em Sergipe, mas perdeu Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, estados que administrava. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes ficou em segundo, com 44,16%, contra 50,88% de Douglas Ruas, do PL. No Congresso, a bancada do partido no Senado cai de 14 para cinco senadores no ano que vem, e a da Câmara recua de 48 para 43 deputados. O contraste é grande com 2024, quando a sigla elegeu 819 prefeitos, entre eles os de cinco capitais.
Antes disso, em março, Kassab havia deixado a Secretaria de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, cargo que ocupava desde o primeiro dia da gestão Tarcísio. Na justificativa oficial, afirmou que a função se tornara incompatível com sua atividade política e eleitoral, por presidir o PSD em ano de eleição. Relatos da época apontavam divergências com o governador sobre o futuro político dele, versão que nunca foi confirmada pelos dois lados.
No segundo turno, o partido tomou um caminho diferente do de seu próprio candidato. Caiado anunciou em Goiânia, no dia 6 de outubro, apoio a Flávio Bolsonaro. A direção nacional do PSD optou pela neutralidade, e Kassab liberou diretórios estaduais, parlamentares e filiados para decidir individualmente.
A posição deixou o partido sem compromisso formal com nenhum dos dois lados, e foi dessa posição que Kassab se moveu assim que o resultado saiu. Na manhã de 26 de outubro, ele divulgou nota em nome do PSD parabenizando Lula e Geraldo Alckmin. No texto, sinalizou apoio a iniciativas de redução das desigualdades e a medidas de equilíbrio fiscal que, segundo ele, tragam confiança a quem quer investir no país, e afirmou que governadores e parlamentares eleitos manterão relação republicana com o governo federal.
No dia seguinte, em debate com empresários em Brasília, o tom ficou mais explícito. Kassab disse que o partido está pronto para colaborar e para permitir que seus quadros integrem o governo, com uma ressalva que virou a marca do discurso. “Sem submissão”, afirmou. Ele também disse que não foi consultado sobre a formação do ministério e que não indicará nomes, e classificou o quarto mandato como a melhor oportunidade da vida de Lula, que poderia deixar o cargo em 2030 como o único brasileiro a presidir o país quatro vezes.
O PSD tinha três ministérios no mandato que se encerra, os de Agricultura, de Minas e Energia e da Pesca. Kassab não disse se o partido pretende mantê-los.
A fala encontrou resistência imediata no PT. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o próximo governo será de coalizão e que quem ocupar espaço precisa oferecer governabilidade integral e total, sem o que chamou de meia governabilidade. Para ele, é errado que um partido com três ministérios se posicione contra o governo.
O movimento de Kassab acontece em meio a um reposicionamento mais amplo. Republicanos, União Brasil e PP ficaram neutros em parte da disputa presidencial e agora ensaiam adesão ao novo mandato. O próprio Kassab afirmou a empresários que os partidos do centrão estão com Lula, apesar da neutralidade oficial. O cálculo tem uma razão prática, já que o Congresso eleito é mais à direita, com 260 deputados no bloco da direita, 121 deles do PL, segundo levantamento do Diap.
Mesmo com o revés nas urnas, Kassab chega a essa conversa com ativos que poucos dirigentes partidários reúnem. São centenas de prefeitos espalhados pelo país, quatro governos estaduais conquistados em outubro, mais de 40 deputados federais e uma máquina partidária com alcance nacional.