Olmair Rillo
Antes das redes sociais, a intolerância já incendiava uma faculdade
A tragédia da Rua Maria Antônia, em 1968, mostra o que acontece quando o adversário deixa de ter o direito de pensar diferente
15/10/2026 às 23h30
Ao observarmos a atual polarização nas redes sociais, podemos ter a falsa impressão de que a intolerância ideológica extrema é um fenômeno exclusivo da era digital.
A história, porém, demonstra que o ódio político e a violência entre grupos antagônicos são muito anteriores à existência da internet.
Um dos episódios mais marcantes ocorreu em outubro de 1968, quando a estreita Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, transformou-se em cenário de um violento confronto envolvendo estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e grupos ligados à Universidade Mackenzie, entre os quais atuavam integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).
As tensões já vinham se acumulando quando, na manhã de 2 de outubro, estudantes da USP realizavam um pedágio para arrecadar recursos destinados ao 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).
O que começou com provocações e arremessos de ovos rapidamente se transformou em uma batalha campal. Vieram as pedras, os paus, os rojões, os coquetéis molotov, o ácido sulfúrico e os disparos de armas de fogo.
Nos dias 2 e 3 de outubro, a chamada Batalha da Maria Antônia deixou dezenas de feridos, provocou a destruição e o incêndio do prédio da Faculdade de Filosofia da USP e resultou na morte de José Guimarães, estudante secundarista de 20 anos, atingido por um tiro na cabeça.
Mas aquele episódio não foi simplesmente uma briga entre estudantes de instituições vizinhas.
O Brasil vivia sob a ditadura militar. De um lado, havia um movimento estudantil fortemente envolvido na oposição ao regime. De outro, grupos conservadores e organizações anticomunistas, entre elas o CCC, que recorriam à violência contra seus adversários. A atuação de agentes da repressão também marcou aqueles acontecimentos.
A tragédia da Rua Maria Antônia tornou visível uma realidade que ultrapassava seus limites: quando o adversário político deixa de ser reconhecido como alguém que tem o direito de pensar diferente, a divergência pode transformar-se em perseguição e violência.
Recordar aquele episódio não significa apenas lamentar a destruição de um patrimônio histórico ou a morte de um jovem que tinha toda uma vida pela frente.
Significa compreender que a intolerância não nasce necessariamente de grandes acontecimentos. Muitas vezes, começa nas pequenas agressões, nas palavras que desumanizam, na incapacidade de ouvir e na convicção de que somente um lado possui o direito à razão.
Hoje, os confrontos assumem outras formas. Nas redes sociais, ofensas, ameaças e discursos de ódio circulam com uma velocidade que nós, os estudantes de 1968, jamais poderíamos imaginar.
É evidente que os contextos históricos são diferentes. Mas permanece o risco de transformar diferenças políticas em inimizades pessoais e de considerar legítima qualquer agressão contra quem pensa de outra maneira.
A memória da Rua Maria Antônia, portanto, não deve servir à nostalgia nem à exploração de antigas rivalidades. Deve funcionar como advertência.
Afinal, uma sociedade democrática não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que todos reconheçam o direito de discordar sem recorrer à violência.
Porque, quando o ódio toma o lugar das ideias, a política deixa de construir caminhos e começa a produzir vítimas.
Olmair Perez Rillo é membro da Academia Penapolense de Letras (APL), integra a Comissão de Méritos da Câmara Municipal de Penápolis e os Conselhos Gestores do Saneamento Ambiental (DAEP) e da Política Urbana. Marketólogo e palestrante motivacional, preside a Associação dos Aposentados, Pensionistas e Idosos de Penápolis (A.A.P.I.P.).
Instagram: @olmairperez
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