Olmair Rillo
Ainda somos Da amarelinha ao Cine São Benedito, a infância que ainda mora na gente
Memória de uma Penápolis de papagaios no céu e brinquedos pedidos com os olhos, que o 12 de outubro traz de volta
09/10/2026 às 02h27
No Grupo Escolar Augusto Pereira de Moraes, em Penápolis, aprendemos muitas coisas. Entre elas, o respeito e o amor pela natureza, pelos animais e pelas pessoas.
Mais tarde, no Instituto de Educação Dr. Carlos Sampaio Filho — hoje E.E. Dr. Carlos Sampaio Filho —, aprendemos também um pouco da história do Dia das Crianças.
Em 1923, o Rio de Janeiro sediou o 3º Congresso Sul-Americano da Criança, no qual foram discutidas questões relacionadas à saúde, à educação e aos direitos da infância.
No ano seguinte, por iniciativa do deputado federal Galdino do Valle Filho, o dia 12 de outubro foi oficializado como Dia das Crianças pelo presidente Artur Bernardes, por meio do Decreto nº 4.867, de 5 de novembro de 1924.
A data, porém, permaneceu praticamente esquecida até 1955, quando a fabricante de brinquedos Estrela lançou a campanha “Semana do Bebê Robusto”, com o objetivo de impulsionar as vendas e resgatar comercialmente a comemoração.
Dez anos depois, em 1965, a Johnson & Johnson lançou o concurso “Bebê Johnson”, no qual os pais inscreviam fotografias de seus filhos, de seis meses a dois anos, para concorrer a prêmios e ganhar destaque publicitário. Assim, uma data oficial que pouca gente lembrava foi conquistando espaço no calendário comercial brasileiro.
Mas, para nós, crianças de ontem, outubro significava outra coisa.
Era tempo de lembranças.
O Grupo Escolar Augusto Pereira de Moraes, a Praça Dr. Carlos Sampaio Filho — que já se chamou Praça Antônio Define —, o antigo Ginásio do Estado e todo aquele entorno passaram por inúmeras transformações.
Nada, porém, apagou da memória o tempo em que o mundo parecia um lugar sem grandes perigos e os brinquedos eram pedidos com os olhos. Bastavam algumas lágrimas para sensibilizar os adultos e, depois, nos lambuzarmos com as guloseimas conquistadas.
Orientados por professores dedicados, aprendemos as primeiras letras e descobrimos que a felicidade podia estar nas pequenas grandes coisas.
Vivíamos despreocupados, jogando bola e empinando papagaios no terreno onde tantas vezes nos divertimos com o Circo-Teatro Motinha e Nhá Fia, hoje ocupado pelo Ginásio Municipal de Esportes Antônio de Castilho Braga, o nosso querido Gigante Azul.
Brincávamos de amarelinha, bolinha de gude, passar anel, pernas de pau, peteca e pião. Fazíamos barquinhos de jornal, bonequinhas de pano e comidinhas em fogões improvisados.
E havia o teatro.
Imitávamos Emília e o Visconde de Sabugosa, pagando a “entrada” com palitos de fósforo. Vibrávamos com Rin Tin Tin, Zorro, Tarzan, Sininho e Peter Pan no antigo Cine São Benedito. Sofríamos quando o lobo mau ameaçava a vovozinha e comemorávamos quando a Gata Borralheira virava princesa, Branca de Neve despertava com o beijo do príncipe e a rainha má recebia o merecido castigo.
E tudo terminava bem.
Porque criança precisa acreditar que o bem sempre vence.
Hoje, quando outubro chega, alguma coisa dentro de nós volta a ser criança. Ao lado das crianças de hoje, reencontramos aquelas que fomos um dia. Recordamos as lições de humildade transmitidas por pais, avós e professores queridos, que nos ensinaram, acima de tudo, a amar o próximo.
O tempo passou. As escolas mudaram. As praças mudaram. Os brinquedos mudaram. A cidade mudou.
Nós também mudamos.
Alguns daqueles que nos ensinaram já partiram. Muitos dos lugares onde fomos felizes desapareceram ou ganharam novas formas.
Mas basta uma velha canção, uma fotografia, o cheiro de uma guloseima ou uma simples lembrança para que o passado volte a se fazer presente.
Por alguns instantes, somos novamente aqueles meninos e meninas que corriam pelas ruas, empinavam papagaios, jogavam bola, inventavam histórias e acreditavam que o mundo seria exatamente como sonhávamos.
Crescemos. Envelhecemos. Acumulamos responsabilidades, perdas, saudades e cicatrizes.
Mas a infância não foi embora.
Ela apenas cresceu conosco.
Por isso, quando outubro chega, não celebramos apenas as crianças que estão diante de nós. Celebramos também aquelas que continuam vivendo dentro de cada um de nós.
Porque o tempo pode envelhecer o corpo, transformar a cidade e levar pessoas queridas.
Mas existe uma criança que ele jamais conseguirá expulsar do coração.
AINDA SOMOS CRIANÇAS.
Olmair Perez Rillo é membro da Academia Penapolense de Letras (APL), integra a Comissão de Méritos da Câmara Municipal de Penápolis e os Conselhos Gestores do Saneamento Ambiental (DAEP) e da Política Urbana. Marketólogo e palestrante motivacional, preside a Associação dos Aposentados, Pensionistas e Idosos de Penápolis (A.A.P.I.P.).
Instagram: @olmairperez
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