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Sábado, 17 de outubro de 2026
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Evandro Leite Evandro Leite

Para onde vão os nossos jovens e o que faz uma cidade segurar sua gente?

O Censo mostra as cidades pequenas encolhendo enquanto os jovens partem, e o futuro do interior depende de dar motivos para ficar

15/10/2026 às 19h50

Evandro Leite Fernandes
Evandro Leite Fernandes

Toda família do interior conhece essa cena de cor. O filho termina a escola, arruma as malas, promete que volta e embarca para a cidade grande atrás de faculdade ou de emprego. Nos primeiros anos ele aparece nos feriados, depois só no Natal, até que um dia se casa, compra apartamento longe daqui e a visita vira videochamada. Multiplique essa história por muitas famílias ao longo de décadas e o resultado aparece, frio e preciso, nas estatísticas do IBGE.

O Censo de 2022 revelou um Brasil que pouca gente imaginava tão cedo. As cidades pequenas estão encolhendo, e encolhendo primeiro pela base. Nos municípios com até dez mil habitantes, a população de crianças e adolescentes caiu 21% em relação ao Censo anterior, e a queda passa de 15% nas cidades de até cinquenta mil moradores. Nos menores municípios do país, aqueles com até cinco mil habitantes, já vivem 76 idosos para cada 100 jovens, a maior proporção de envelhecimento do Brasil. Os demógrafos explicam o fenômeno pela soma de dois movimentos que se alimentam: nascem menos crianças em todo lugar, e os jovens em idade de trabalhar e formar família migram para os grandes centros, levando junto os filhos que teriam aqui. Considerando que quase 70% dos municípios brasileiros têm menos de vinte mil habitantes, estamos falando do futuro da maior parte do mapa do país.

Convém dizer com franqueza que não há vilão nessa história. O jovem que parte está exercendo um direito legítimo, o de buscar o próprio caminho, e muitos dos que saíram venceram na vida e honram a cidade onde nasceram. O problema, como bem resumiu um estudioso do tema, nunca esteve na liberdade de migrar, e sim na falta de condições para permanecer. São coisas muito diferentes. Uma cidade saudável é aquela em que ficar é escolha, nunca falta de alternativa, e partir é opção, nunca sentença.

E o que acontece quando uma cidade perde seus jovens? Perde muito mais do que população. Perde consumidores para o comércio, alunos para as escolas, trabalhadores para as empresas, empreendedores para abrir os negócios de amanhã. Perde quem cuidaria dos pais na velhice, quem assumiria a propriedade rural da família, quem renovaria os clubes, as igrejas, os times e as tradições que dão alma a um lugar. A economia sente, os serviços encolhem, e o encolhimento afasta ainda mais quem pensava em ficar. É um círculo que, uma vez instalado, custa caro a desfazer.

A boa notícia é que esse destino não está determinado. Cidades que reagiram mostram um possível caminho, e ele passa por algumas frentes que se completam. Emprego de qualidade vem primeiro, porque ninguém fica onde não há futuro profissional, e isso significa atrair indústria, fortalecer o comércio e os serviços, apoiar quem quer empreender e aproveitar as vocações econômicas da região. Educação vem junto, porque cidade com ensino técnico e superior ao alcance segura o jovem nos anos em que ele mais cria raízes, e quem estuda perto de casa tem muito mais chance de construir a vida por aqui. Há experiências animadoras nesse sentido, como programas de formação de jovens no campo em que nove entre dez permaneceram nas propriedades das famílias depois de qualificados.

Qualidade de vida pesa cada vez mais na decisão, ainda mais num tempo em que o trabalho remoto permite morar longe dos grandes centros, e cidade segura, arborizada, com saúde que funciona e vida cultural ativa virou vantagem competitiva na disputa por moradores. E existe, por fim, um ingrediente que não aparece em planilha nenhuma, o pertencimento. Jovem que cresce ouvindo que aqui não tem nada aprende a ir embora. Jovem que cresce participando da vida da cidade, sendo ouvido e enxergando gente como ele prosperando por aqui, aprende que vale a pena ficar.

Penso que essa deveria ser a régua de toda discussão pública séria numa cidade como a nossa. Diante de cada decisão, de cada investimento, de cada projeto, caberia perguntar se aquilo ajuda a segurar e a atrair gente, especialmente gente moça. Porque cidade não é o conjunto de prédios e ruas, cidade é quem vive nela. E nenhum lugar tem futuro exportando justamente a sua juventude.

Da próxima vez que um jovem daqui arrumar as malas, que seja porque quis conhecer o mundo, e nunca porque a cidade não soube lhe dar motivos para ficar. Trabalhar para que a volta valha a pena, aliás, talvez seja a mais importante das políticas públicas que temos pela frente.

Evandro Leite Fernandes é bacharel em Ciências Contábeis e Administração com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente atua como gestor comercial

Os textos dos colunistas expressam a opinião de seus autores.